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04/01/2009

Isso é mais um desabafo do que um conto em si. Algumas vezes acho que não fui nem mesmo eu quem escrevi algumas coisas, e essa está entre elas. Espero que gostem:

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QUANDO UM ENTERRO ACONTECE, É normal que a tristeza impregne o ambiente como o cheiro de fumaça impregna numa roupa. É horrível a sensação que se sente: a falta do que falar, e não passar de um simples ‘meus pêsames’; a forma como olhar para os mais próximos do morto. Todos tristes, óculos escuros cobrindo a vermelhidão dos olhos, lágrimas escorrendo, e você lá, sentado num canto, observando passivamente o corpo dentro do caixão aberto. Os olhos da morta fechados, a pele cinzenta e as pétalas de flores, que tentam dar alguma cor ao ambiente pesado. Mas não adianta. Chegam a ser engraçadas, as flores.

Era em meio a essa situação que me encontrava: sentado em um banco de pedra, analisando friamente toda a situação, um nó na garganta, tentando compreender porque aquilo aconteceu tão de repente. Tento olhar para toda a extensão do cemitério. Tento admirar aquela grama muito verde, toda aquela calma, todo o silêncio – intercalado pelos gemidos e pelas orações de todos os parentes de todos os corpos que estão sendo velados naquele momento -, mas não consigo. Não consigo sequer pensar em algo. É como se estivesse dormindo, preso em um sonho estranho, psicodélico. Parece que vejo tudo o que está acontecendo, mas não participo. É como se aquilo não passasse de uma imagem distorcida, de uma cena de um filme. Não tinha importância. Não mesmo. Estava calado, havia um cadáver em um caixão, havia pessoas chorando por aquela morta, pessoas desesperadas, que gritavam “POR QUÊ?” aos céus e culpavam Deus por não a ter protegido como um bom pai protege seus filhos. Pessoas de cabeças baixas, chorando copiosamente, e eu não me importava com nada. Não me importava com a dor dos outros, nem com a morte, nem com o cemitério.

Mas tinha aquele nó atado em minha garganta, aquele incômodo que me fazia perceber que meu coração não era tão frio, no fim das contas.

Lembro que olhei para o caixão vez ou outra, sem muito interesse. E o tempo todo lá estava ele, ajoelhado em frente ao caixão, as mãos postas, os óculos escuros no rosto, a cabeça baixa. Não conhecia muito bem a família – era amigo de um amigo da morta –, mas sabia que aquele era o filho da morta. Não devia ter sequer dezoito anos, era alto, magrelo, cabelos vermelhos e a barba rala e tímida começando a crescer. O garoto estava com uma calça jeans desbotada e uma camisa preta, me lembro perfeitamente bem. Parecia estar anestesiado, em choque, ajoelhado naquela posição. Ficou lá por muito tempo, tempo demais para se contar, e ninguém ousava chegar perto. Ninguém ousava tocá-lo, porque ninguém sabia o que falar. O nó na minha garganta se apertou ainda mais quando tentei me colocar no lugar dele. Afinal, o que eu esperaria ouvir num momento como aquele? “Meus pêsames”?

Quando o furgão chegou para levar o corpo até a cova, o garoto finalmente se levantou. Estava chovendo, e os passos de todos dentro da sala de velório havia molhado o chão e o sujado de lama. Os joelhos do garoto estavam amarronzados, mas ele não se importou. Simplesmente levantou-se, deu um passo para trás e observou enquanto o grupo contratado pela funerária fechava o caixão e o levava até o furgão. Para eles era apenas negócios, mais uma morte, mais uma cova comprada, mais lucro para o dono do lugar. A dor era o que lhes dava lucro, e eles não pareciam se importar com isso. Tinham o respeito que todo vivo deve a um morto, mas conversavam baixinho entre si, contando uma anedota ou outra e rindo resignadamente, sem abrir a boca ou mostrar os dentes.

Levaram o caixão até o local. O furgão não passava dos dez por hora, seguindo no mesmo ritmo lento da dor, que parece corroer. Os entes faziam uma procissão atrás do carro, e eu os seguia, mecanicamente. Não sabia realmente o que estava fazendo ali, tomando chuva, provavelmente esperando um resfriado para o dia seguinte, sem verter uma lágrima ou me incomodar com a situação. Apenas o nó na garganta me incomodava, como se fosse a única lembrança de que aquele furgão carregava uma morta que era amada por alguém, mesmo que esse alguém não fosse eu.

O caixão foi içado com lentidão até o fundo da cova. Parecia uma cena de filme. O grand finale. Uma morte que deixa os espectadores com uma sensação de perda, a mesma sensação de perda do personagem principal. Só faltava a música de fundo. Uma música triste, com violinos, violões e uma voz firme que ia se tornando lenta e chorosa ao final, e que acabava com gritos que faziam a espinha gelar e o coração se apertar. Mas não era nada daquilo. Em lugar da música, o silêncio – intercalado pelo choro, pelo canto de alguns pássaros e pelo tum-tum-tum do motor do furgão. O simples silêncio, que doía mais que a música gemida e que a cena dramática de cinema. Era a realidade, e ela se mostrava cruel.

Não sei por que me dei ao trabalho de escrever isso; não agora, tanto tempo depois de tudo isso ter acontecido. Enquanto escrevo essas palavras, parece que a sensação da garganta volta. Aquele nó apertado.

Aquele nó que me faz perceber porque me importo. Aquele nó que me faz perceber que sou humano.

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